Na era dos filmes de adaptações dos quadrinhos de heróis, chegou a vez do icônico vilão do Cavaleiro das Trevas, Coringa ganhar seu próprio filme. Este que diferente dos inúmeros lançamentos que chegam as telonas, possuí características nada parecidas com o que já vimos no gênero. E ainda bem!

Dirigido por Todd Phillips e escrito por Scott Silver, o longa conta a história de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um palhaço que busca se integrar a sociedade despedaçada de Gotham City, e que possuí o sonho de se tornar comediante de stand-up. Arthur se dedica a cuidar de sua mãe doente (Frances Conroy), ao mesmo tempo em que enfrenta transtornos mentais que o fazem ser visto como esquisito pelas pessoas que o rodeiam.

Este Coringa, dialoga com o histórico de seu personagem em edições anteriores, tanto no cinema como em quadrinhos e animações, porém, sem ditar quaisquer referencias prévias, pois aqui trata-se de uma história totalmente original, apesar de nomes como Gotham e a família Wayne, não há outras menções do universo DC no longa. O Coringa de Joaquin Phoenix, reinventa as características do personagem sem modificar nada ou citar os seus antecessores; é totalmente caótico e doentio, e não vê problemas em tamanha violência de seus atos.

Durante praticamente o filme todo, Coringa é o foco total em tela, mostrando o quão Joaquin Phoenix está incrível dando vida ao personagem. Em todos os aspectos possíveis, seja em sua postura e seu detalhado trabalho de expressão corporal, ou nas sutilezas que enriquece ainda mais o personagem, como a risada, que é por vezes desesperadora, comovente ou absolutamente assustadora. Além de toda a dramaticidade que entrega, fazendo com que possamos ver neste Coringa uma variedade imensa de perfis multifacetados, um pouco de todos os que já vimos anteriormente, sem perder sua originalidade.

A direção acerta em ambientar o filme nos anos 80, trazendo uma Gotham suja, sombria e mórbida, como de fato tem que ser. A fotografia e o figurino dão mais vida ainda ao sentimento de angustia que a cidade causa, fazendo com que a trajetória do personagem e sua transição durante o longa, fiquem ainda mais exposta para o espectador. Um pouco da causa de suas atitudes de vilania parte da sociedade violenta em que ambienta, e esta ambientação criada pela produção, é totalmente bem-feita.

O roteiro impecável de Scott Silver e Todd Philips acerta em cheio ao colocar um subtexto político na trama, que faz parte da transformação de Arthur Fleck no Coringa. Quando a luta de classes chega a Gotham, provocando um levante dos oprimidos contra a elite local, cujo seu maior representante é Thomas Wayne, trazendo toda a essência da mitologia do Batman, que aqui apresenta uma nova abordagem à origem do homem morcego, que já é muito batida.

O filme é claramente inspirado em clássicos urbanos de Martin Scorsese – que teve uma pequena participação do roteiro — principalmente em Taxi Driver e Rei da Comédia. No decorrer da trama fica evidente a inspiração nos filmes citados, ainda mais quando que uma das atrações no elenco, é Robert De Niro que merece destaque por sua desenvoltura como o apresentador de TV Murray Franklin, óbvia referência (invertida) ao seu papel em Rei da Comédia.

Violento e com uma excelente abordagem política, Coringa é um filme que vai além dos estereótipos de super-heróis que nos acostumamos, e entrega um filme sujo, corajoso e transgressor, que condiz com a essência do personagem, e com a mitologia já estabelecida de Gotham City caótica, decadente e sem qualquer regra.

5.0

de 5

1 COMENTÁRIO

  1. Onde assina? Perfeita colocação, o filme é nota máxima mesmo, melhor do ano e pode arranjar um lugar para ele nos melhores filmes já feitos. Parabéns pela crítica.

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