Crítica | Lovecraft Country (1ª temporada)

H. P. Lovecraft é um dos autores de maior nome na cultura literária. Considerado o percursor do chamado horror cósmico, Lovecraft, criou inúmeros contos e deu vida a monstros e entidades inomináveis e inimagináveis. No entanto, o autor ficou conhecido também pelo seu preconceito xenofóbico e racista colocado em suas obras. Com isso, o autor Matt Ruff escreveu a obra Lovecraft Country, o livro inspirado nos contos de Lovecraft que mistura o horror cósmico com denúncia ao racismo e preconceito que, infelizmente, até hoje é um problema social.

Baseado na obra de Matt Ruff, a HBO nos presentou com a série homônima, que incorporou perfeitamente a obra, nos apresentando 10 episódios com diferentes formas de horror em uma trama poderosa, com discussões necessárias sobre racismo e representatividade.

A série conta a história de Atticus Turner (Jonathan Major), um veterano de Guerra que volta para casa quando descobre que seu pai, Montrose (Michael K. Williams), havia desaparecido. Junto de sua família e amigos, Atticus parte para uma aventura se envolvendo em um espiral de horror, com monstros nascidos do oculto, do sobrenatural, da intolerância e da ignorância humana. Mas não pense que é uma adaptação dos monstros “Lovecraftianos“, não há nenhum Chthulhu na trama, a série funciona com episódios fechados que abordam diferentes contos de horror, ligando-os todos no resultado final da trama.

Desta forma, Lovecraft Country proporcionou uma nova experiência a cada episódio, diversificando estilos de contar histórias com abordagens em diferentes pontos de vista. Cada episódio é protagonizado por um personagem e passeia por um subgênero diferente: do horror cósmico, casa mal-assombrada, monstros mitológicos, ficção científica, body horror e até aventuras com todo estilo Indiana Jones e Flash Gordon. O enredo conecta esses contos de horror com tragédias reais como o Massacre de Tulsa, ou a Guerra da Coréia e, ainda usa as leis, o racismo e o preconceito que existia nos Estados Unidos na década de 50, como motivo de medo e tensão para com os protagonistas.

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Na trama, o que torna a experiência ainda mais assustadora é que em alguns dos momentos mais tensos da série, são inspirados no fator social do racismo, fazendo com que não seja simplesmente gratuito a forma em que o problema é abordado. A partir desses momentos, a produção absorve os elementos de horror inspirados nas obras de H.P Lovecraft de monstros inimagináveis que atormentam a mente dos homens, com uma ponte que os liga com os medos reais, as vezes é menos apavorante encontrar com um ser sobrenatural do com um policial branco, por exemplo.

Lovecraft Country conta com uma produção de ponta, tendo como roteiristas nomes de peso como Misha Green, Jordan Peele e J.J Abrams, que nos apresentam histórias poderosas com uma paixão à cultura afro-americana. Desde a fotografia, até a música, com muitas figuras de linguagens que nos levam a um vislumbre visual e cultural. Os roteiristas conseguiram dar desfechos satisfatórios para histórias que precisaram muitas vezes que os personagens tomassem atitudes um tanto que injustificáveis para que a trama ande, por conta da falta de tempo para abordar tanta coisa. Por pouco essas escolhas não ofuscam a construção de personagens e histórias interessantes.

Além disso, a construção de mundos feita pelos roteiristas é de tirar o fôlego. Partindo de lugares reais, à mundos inimagináveis, mesclando mitologias existentes com outras totalmente originais, criando uma atmosfera totalmente nova, que no final, faz com que todos esses universos se encontrem à caminho do mesmo trajeto, ligando todas as tramas e protagonismos num mesmo ponto.

Lovecraft Country em sua primeira, e talvez única, temporada, tem um resultado impactante, se tornando uma das grandes produções do ano de 2020, abordando assuntos tão necessários e atuais, sem deixar o tom pulp fiction que tanto adoramos, a produção conseguiu entregar uma história motivadora de superação e representatividade com um vislumbre cultural, absolutamente aterrorizante ao mesmo tempo que, emocionante.

5.0

DE 5

Leonardo Vieira
Fã de quadrinhos e cinema, futuro jornalista e amante de robôs gigantes!