Crítica | Saint Maud (2019)

Saint Maud é, no mínimo, muito diferente. Definitivamente não é o tipo de narrativa de horror tradicional que o grande público costuma consumir, além de ser dotada de um ritmo bem mais lento. Tais fatores podem tanto afastar o público, pelo estranhamento, quanto atrair, pela curiosidade. Em suma, é aquele famoso filme 8 ou 80, alguns amam, outros odeiam.

Em poucas palavras, a história retrata Maud, uma jovem enfermeira e recém-convertida ao cristianismo, a partir do momento em que ela começa a cuidar de uma ex-dançarina em estado terminal de câncer. Testemunhamos então a jornada obsessiva e fanática de Maud para salvar a alma de sua paciente, custe o que custar.

A narrativa se desenvolve através desse olhar peculiar da protagonista, diante de uma perspectiva de mundo fortemente cristã e conservadora, mas que em realidade parece se resumir a busca de um propósito por uma jovem claramente perdida. Ao invés da visão religiosa de bem e mal a partir de um padre ou exorcista, tão comum no cinema de terror, temos aqui a ótica de um devoto comum, alguém que possui a fé como vida, mas que não é versado na doutrina divina.

Um dos êxitos da obra é a autenticidade que se encontra na trama, pois reconhecemos e nos identificamos com os sentimentos e problemas existenciais pelos quais passa a protagonista, que é brilhantemente interpretada por Morfydd Clark, ainda que esta realidade de devoção seja tão distinta do cotidiano de quase todos os espectadores.

Enxergamos nas palavras do roteiro e na atuação a verdadeira dor da devoção e da penitência. E depois, ao compreender a atmosfera assustadora que cerca a jovem, nos perguntamos se é realmente necessário todo esse sofrimento para poder acreditar. É a representação da dualidade da fé como benção e como fardo angustiante.

Acima de tudo, é um horror do metafísico e do espiritual, que reflete sobre o que diferencia de fato Deus e o Diabo, pois o Antagonista, assim como o Criador, também está nas entrelinhas. É o tipo de filme em que se compreende a jornada a partir do final, no qual podemos perceber a relevância de cada elemento conforme ponderamos sobre a obra. Incita-se uma reflexão em ampla escala, desde mínimos aspectos até grandes dilemas humanos.

Ademais, Saint Maud é um daqueles filmes no qual a linguagem cinematográfica é tão exaltada, que até o espectador mais comum é capaz de perceber sua utilização. Imagens, som, luz, planos, cor, tudo isso é trabalhado com maestria. É ainda mais impressionante quando descobrimos que esse é o primeiro longa de Rose Glass, diretora que pode se tornar um dos grandes nomes do terror moderno, caso continue com o excepcional trabalho.

A obra em termos de estética é um primor. Existe um viés experimental e visual impressionante, algo que não costuma se assistir muito no terror de grande público atual. O filme é repleto de enquadramentos simbólicos e inovadores, além de uma fotografia e uma paleta de cores deslumbrantes. Outro aspecto que se destaca é o som, pois ele não existe apenas para cessar o silêncio, mas é executado como elemento fundamental e notório da obra. São trilhas e efeitos sonoros que amplificam enormemente as sensações do espectador, desde sentimentos ambíguos de conforto e plenitude, até completo terror ou repulsa.

Em síntese, para além dos êxitos na linguagem cinematográfica e na trama, acredito que o principal trunfo da obra se encontre em colocar o espectador diante dos seus maiores problemas, contradições e fragilidades. É um medo que surge da desesperança perante a morte inevitável do ser humano, ao contemplar e questionar qual a verdadeira perspectiva da salvação.

Saint Maud

Saint Maud

Ano: 2019
Duração: 84
Direção: Rose Glass
Roteiro: Rose Glass
Elenco: Morfydd Clark, Jennifer Ehle, Lily Knight, Lily Frazer

NOTA

Nikolas Zalewski
Estudante de cinema e aspirante a nerd.