Resenha | Acorda pra vida, Chloe Brown — Talia Hibbert

Sabe quando você encontra o livro certo? Você vê aquela capa fofinha, não espera se surpreender ou sequer se apaixonar e tem uma gentil surpresa. Ler Acorda pra vida, Chloe Brown é ter esse sentimento desde as primeiras linhas. 

Chloe Brown podia ser confundida rapidamente com uma garota mimada que insiste em usar roupas chiques repletas de botões. Já Redford Morgan seria o perfeito bad boy, que pilota motos e usa jaquetas de couro. Mas as pessoas são mais do que aparentam e menos do que esperamos. 

Não há nada pior do que acompanhar dois personagens lutarem para ficar juntos e quando finalmente conseguem, o livro acaba. Não se sabe porque eles se gostam, nem do que gostam. É como ligar a TV para assistir um programa superficial e quando você desliga a TV de madrugada, o silêncio fica.

Acorda pra vida, Chloe Brown é uma ótima história não só por nos fazer entender o porquê de os protagonistas estarem apaixonados, mas os porquês de eles serem como são. 

Nós passamos a compreender Chloe e Red, o que gera certo vínculo com os personagens. Com a narração dos dois, desmascaramos os mitos ao conhecê-los, nos surpreendemos junto com eles. Rimos, refletimos e nos apaixonamos. 

E suas muitas falhas, infelizmente, não me impediam de adorá-lo. Afinal , quando se trata de amor, não é para as falhas da pessoa que olhamos, é?”

A autora Talia Hibbert acertou em cheio na escrita, recheando as páginas com trechos engraçados, tristes, íntimos e poéticos ao mesmo tempo. Poucos livros conseguem atingir esse feito e isso faz com que você queira fechar os olhos e guardar os diálogos na mente pelo tempo que conseguir. A linguagem é fluida, e a obra ainda nos traz trechos dignos de aplauso. 

Não sei se você leitor teve a oportunidade de alguma vez se apaixonar, mas se sim, sabe facilmente reconhecer a poesia nas linhas desta obra. 

Seus sonhos eram estrelas cadentes marcando de fúcsia o pôr do sol arroxeado; neles, mais do que se mover, as pessoas surgiam em um turbilhão direcionado a ele, e havia música sob sua pele.”

Outro elogio a se fazer é quanto a progressão do roteiro. É bom acompanhar a mudança no tom das situações e em seu impacto, poder sentir o que faz com que o Red queira estar perto da Chloe e vice versa. 

Red havia visto. Red havia visto, e aquilo tocara em algo profundo e indomado nele, que provavelmente teria sido melhor deixar quieto. Algo que o fazia se sentir mais confortável na própria pele. Ele queria tocá-la, só para ver se pareceria diferente agora. Agora que Red sabia que Chloe via algo do mesmo jeito que ele.”

Escrever romance não é só sobre romance. Bobo dizer isso, não é mesmo? Somos fisgados pelos detalhes dos cenários e das personalidades que conhecemos. Queremos saber o que Red faz em seu tempo livre, o que Chloe faz da vida… Desde o princípio pode-se perceber que esta história não é apenas sobre conhecer o amor, mas conhecer a si e ao outro. Ao longo da trama, conhecemos os medos, os pontos fracos de Redford e Chloe e isso se torna muito mais memorável do que um envolvimento fugaz entre os dois, que encerra o livro. Ao virar a última página você sabe que não vai lembrar só da paixão, mas de quem eles são separados e juntos. 

Como fazer isso? Como conhecer essas pessoas que nem existem? Conte-nos sobre seus traumas, suas vontades, seus medos e dores, seus sonhos, mostre-nos o que você sabe fazer de melhor. Chloe está longe de ser a típica mocinha inocente dos romances, longe da perfeição. Também é legal ver a representatividade que Talia nos presenteia ao entregar uma personagem negra, com feições sempre elogiadas pelos outros.

Claro, ela tem seus dias ruins de não querer levantar da cama, dias de não se arrumar tão bem quanto acha que deve. E isso é bom. É ótimo, na verdade. Nos identificarmos com os protagonistas não é somente um alívio, mas um ato de heroísmo. Mostrar Chloe e suas falhas, erros é problema de herói. Não estamos sozinhos, não somos perfeitos e nossos heróis dos livros também não. Por esse motivo, a construção de personagem de Chloe é uma das melhores que encontramos nos dias de hoje, é verídica, é humana. 

Ninguém deveria ser capaz de fazer eu me sentir assim. Ninguém deveria ter esse poder. Não é… seguro.”

A autora também faz um trabalho exemplar com Red, mostrando a importância da arte para Red, de como a frustração muda o trabalha do artista. Ao ler os pensamentos de Redford, nos sentimos artistas, enxergamos seus trabalho mesmo não os vendo. 

Depois que ela se acomodou, ele foi buscar um trabalho que havia finalizado na semana anterior para mostrar. Afinal, não adiantava mostrar a Chloe o que ele fazia antes, tudo muito lúcido, vívido e esperançoso. Red não era mais o mesmo, e fim da história.”

O mais importante é deixar uma mensagem. Ouvir a voz do livro, aprender algo com a obra. Acorda pra vida, Chloe Brown é cheio de saberes e nos faz querer conhecer mais de nós, dos outros e da vida. A história faz com que você queira levantar da cama e acordar pra vida. Sair e viver. 

Não deve haver ensinamento mais simples e difícil de lecionar que esse, né?

Eduarda Suily
Bookaholic, estudante de jornalismo, amante de idiomas e cultura. Gosta de ler livros e criticar. E de ler história nos tempos livres. E, no CN42 escreve sobre isso.