Resenha | Conto: Ligeia — Edgar Allan Poe

Este artigo pode conter alguns spoilers  sobre a história, então ficará a seu encargo prosseguir com a leitura.

Quem poderia resistir a uma bela mulher de cabelos negros como as penas de um corvo? Além de sua enorme beleza, ela possui um vasto conhecimento na área de linguagens, e encanta de imediato com a inteligência. A paixão é tão grande que nosso narrador não consegue esquecê-la mesmo após se casar de novo, depois de sua morte. O problema é quando sua amada, Lady Ligeia, retorna dos mortos.

E ali dentro está a vontade que não morre. Quem conhece os mistérios da vontade, bem como vigor?
Porque Deus é apenas uma grande vontade, penetrando todas as coisas pela qualidade de sua aplicação. O homem não se submete aos anjos nem se rende inteiramente à morte, a não ser pela fraqueza de sua débil vontade.

– Joseph Glanvill, filósofo inglês

Neste conto, somos apresentados a Lady Ligeia desde os primeiros momentos. Através dos olhos do narrador, sentimos sua paixão e admiração pela beleza e caráter de Ligeia. Na verdade, muitas linhas parecem ser dedicadas a uma descrição alongada da personagem para podermos conhecê-la bem e reconhecê-la, posteriormente.

O protagonista — cujo nome desconhecemos —, fala com tanta intensidade de sua querida esposa, que é impossível não sentir compaixão quando descobrimos que Ligeia se encontra à beira da morte. Sentindo que seu fim chegaria, ela pede para que o amado leia alguns versos de um poema que conta sobre uma tragédia, em que num teatro um ser desconhecido devora humanos, sob os olhos de anjos. Em seguida, a moça parafraseia os versos de Joseph Glanvill, aqueles que o marido deixa claro desde o início do conto de que acreditava que a esposa tinha grande ligação.

Com enorme frustração e revolta, Ligeia parte, e nosso protagonista se casa com Lady Tremaine, apesar de não amá-la e nem saber os motivos de terem se unido em matrimônio. Logo, ele descobre que Rowena Tremaine não o ama também. Mas isso não impede que o viúvo sofra bastante ao se dar conta de que sua nova esposa também está doente, assim como estava a anterior.

Rowena estava sofrendo várias recaídas, e certo dia, seu esposo estava sob os efeitos do ópio quando teve de socorrê-la. Ainda que fizesse seu melhor, Lady Tremaine parecia ir e voltar, oscilando na corda bamba da vida. Entre seus momentos de sofrimento, Tremaine confessa ao marido que estava ouvindo sons da tapeçaria dourada do quarto, mas ele não acredita em suas palavras, pensando que um deles estava delirando, pelas drogas ou a proximidade da morte.

Certa noite, Rowena parece ter se livrado por completo de sua doença, e a vida dançava em sua face, com a cor retornando ao rosto. Contudo, não era Rowena. Com agitação e terror, o protagonista reconhece que o vulto que tomou o lugar da esposa atual era nada mais nada menos que a falecida Ligeia, com seus cabelos negros como os de um corvo, os quais ele tanto lembrava.

E então se abriram vagarosamente os olhos do vulto que estava à minha frente.

Aqui, temos a conclusão de que Ligeia é um dos contos mais complexos de Edgar Allan Poe, repleto de ousadia no gótico e vivacidade. A intensidade em que somos inseridos faz com que consigamos visualizar bem o roteiro, porém, isso não impede que nos surpreendamos de maneira positiva com a escrita do autor, que consegue ser bem envolvente e fácil de ser lida.

Não seria sincero dizer que o enredo é surpreendente, já que ao longo da história, várias pistas são dadas para descobrirmos o rumo que a situação está tomando. Isto, contudo, não descarta o ótimo desenvolvimento que Poe fez ao conectar situações e detalhes da obra entre si.

No final, o conto deixa uma ponta para uma continuação, pois nos fornece poucos detalhes sobre a volta de Ligeia. Não sabemos como se deu seu retorno, a razão de ter voltado, e muito menos quais os efeitos que a ressurreição pode ter causado ao corpo. Será que foi Ligeia quem quis matar Rowena? Os versos proferidos são uma espécie de feitiçaria? Não sabemos. Ficamos elétricos com a falta de respostas, o que com certeza não é um ponto negativo.

Ligeia se prova um conto digno de ser lido, cheio de mistério, reviravoltas e intensidade.

Eduarda Suily
Bookaholic, estudante de jornalismo, amante de idiomas e cultura. Gosta de ler livros e criticar. E de ler história nos tempos livres. E, no CN42 escreve sobre isso.