Resenha | Terra das Mulheres — Charlotte Perkins Gilman

Sinopse: Publicado pela primeira vez em 1915, Terra das mulheres mostra como seria uma sociedade utópica, composta unicamente por mulheres. Antes do leitor encontrar a suposta maravilha dessa utopia, terá de acompanhar três exploradores ― Van, o narrador; o doce Jeff; e Terry, o machão ― e suas considerações e devaneios sobre o país, no qual, os três têm a certeza de que também existem homens, ainda que isolados e convocados apenas para fins de reprodução. Um país só de mulheres, segundo os três, seria caótico, selvagem, subdesenvolvido, inviável. Uma vez lá, Van, Jeff e Terry se dividem entre a curiosidade de exploradores com fins científicos e o impulso dominador de um homem, oscilando entre tentar entender mais sobre aquela utópica e desconhecida sociedade e o sonho de um harém repleto de mulheres que talvez estejam dispostas a satisfazê-los e servi-los.

Charlotte Perkins Gilman foi uma mulher a frente de seu tempo. Se divorciou em pleno século XIX, viveu publicamente um romance homossexual, participou de maneira ativa em organizações feministas e reformistas. Sua obra, Terra de Mulheres é um livro que não tem a estima que merece. 

De princípio, somos apresentados a um trio de exploradores: Terry (solteirão arraigado de pensamentos machistas), Jeff (cavalheiro otimista em excesso) e Van (que, meio a meio, cumpre o papel de um narrador quase ideal, ainda que carregue alguns preconceitos consigo). É explícito que suas diferenças, quanto ao comportamento, são representações dos tipos de homens em nossa sociedade. 

Que ótimo narrador é Van! Assim como sua criadora, é um eterno estudante da Sociologia, fato que facilita nossa compreensão acerca do processo de formação desse povo de Mulheres. Através da vivência do personagem, conseguimos compreender a moral, as crenças, costumes, história, a cultura em um todo do país fictício. 

Ainda que inadequado em alguns aspectos para os dias atuais, é impossível não admitir que a obra é revolucionária para a época em que foi lançada. Nos deparamos com uma nação extremamente avançada e educada, formada pelo sexo feminino, que parece progredir em todos os aspectos  ― educação, infraestrutura, segurança ―, e não conhecer o peso dos males comuns às cidades: doenças, pobreza, analfabetismo ou violência.

A medida que a leitura flui, a desconfiança cresce… Teria esse lugar alguma falha? Algum costume bizarro escondido? Nos identificamos com o pensamento dos protagonistas: Isso é uma utopia, impossível de ser colocada em prática. Não é possível. Que país seria tão exemplar assim? 

Ao mesmo tempo, nossos questionamentos são rapidamente replicados pelas mulheres dos livros. Como podemos dizer ser uma utopia se nunca tentamos ser melhores no que deveríamos? Como podemos dizer que um povo necessita do caos? 

Interessante a perspicácia da escritora ao usar termos de cunho biológico, e conectá-los a um nível sociológico. 

Quando dizemos homens, homem, masculino, masculinidade, e todos os seus derivados, temos em mente um mundo enorme e populoso, e todas as suas atividades. Crescer e ‘se tornar um homem’, ‘agir como um homem’ — o significado e as conotações são amplos de fato. […] E quando dizemos mulheres, pensamos em fêmeas — o gênero. Mas para aquelas mulheres, na extensão ininterrupta de dois mil anos de civilização feminina, a palavra mulher evocava esse amplo contexto, em todo o seu desenvolvimento social; e a palavra homem significava para elas apenas macho — o gênero.” 

A única crítica que pode ser feita à história é o enfoque excessivo na maternidade, ao mesmo tempo, esse foco parece ser bem fundamentado quando analisado os motivos. Para este povo, a maternidade é a divindade. Ser mãe não é um dever, é uma honra. É uma retribuição ao milagre que as criou. Um aborto é impensável, horripilante, desumano. História moderna? Sim, mas até certo ponto…

A religião delas, entendam, era maternal; e sua ética, baseada na percepção completa da evolução, mostrava o princípio de crescimento e beleza de uma cultura sábia.”

E os choques culturais? Tendo um lar como paraíso é difícil que elas possam acreditar que existem religiões que prometem uma vida após a morte, afinal, tudo está ótimo, o legado já foi deixado para as próximas gerações. Ah, mas o casamento! Esta tradição é aguardada com expectativa, embora alguns costumes dentro dele sejam recebidos com assombro. 

Van e Jeff são tênues ao mostrarem seus preconceitos. Terry é claro em seu posicionamento. Como mulheres foram capazes de construir uma civilização organizada, algo que os homens nunca conseguiram? Como mulheres conseguiram desenvolver um sistema de agricultura exemplar? Como as mulheres podem ser tão não femininas? Como não são rivais umas das outras? 

Sabemos que mulheres não sabem se organizar, que brigam por qualquer coisa, e são tremendamente ciumentas.”

Por último, mas não menos importante… A Capa! Minha admiração à Editora Rosa dos Tempos. Ao primeiro olhar, a capa parece uma mera réplica de mulheres, porém quando terminamos a leitura é fácil entender a sutileza na criação gráfica da edição. A capa representa a sororidade envolvida em seu cotidiano, a igualdade perante a outra, a descendência. 

Também é sutil como os rostos são levemente diferentes uns dos outros. Como o nariz de uma é mais largo que o de outra, as bocas são diferentes… Contudo, todas são iguais no mesmo propósito: o retrato de uma nação de mulheres. 

Com 256 páginas, Terra das Mulheres é uma leitura rápida com linguagem acessível, e que contém lições de sociologia carregadas de imaginação.

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5.0

DE 5

Eduarda Suily
Bookaholic, estudante de jornalismo, amante de idiomas e cultura. Gosta de ler livros e criticar. E de ler história nos tempos livres. E, no CN42 escreve sobre isso.
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