Quinze anos atrás, ainda no início do fundamental, a primeira frase de Metamorfose me enfeitiçou mais do que a abertura em comics do recém lançado filme Spider Man. Lembro como se hoje fosse, era como ganhar um brinquedo novo fora de data festiva. Logo após senti como se esperasse o episódio da nova supertransformação do Goku previamente anunciada no fim do episódio anterior. Aquela sensação de esperar algo incrível prestes a acontecer… mas o que seria? O Mário de nove anos mal podia esperar e realmente não esperei, devorei Kafka como a um prato de lasanha, empolgado, saboreando cada garfada. Digo… página.

Antes de reler A Metamorfosetive o cuidado de rememorar a sensação de quando era criança. Não lembrava detalhadamente da história, mas apenas do quanto me envolveu. E hoje, adulto, posso perceber as nuances do que outrora me maravilhou. Foi primeiro livro “de verdade” que li e sem ele talvez meu caminho na literatura seria diferente, pois essa leitura fantástica, também introspectiva, guiou e têm guiado meus olhos nas prateleiras das bibliotecas. Portanto, escrever sobre essa obra hoje é literalmente olhar para o início, o famoso episódio com um flashback em meio a uma catarse.

Kafka neste clássico traz muito mais do que um início arrasador em um contexto impossível e caótico, esta é uma obra sobre pessoas, responsabilidade e egoísmo. Gregor é um jovem comum e de bom coração, talvez bom demais, esse é o ponto que indigna o leitor “é tudo tão injusto”, mas será? Voltaremos a esse ponto mais tarde. O jovem rapaz é o esteio de uma família acomodada, levando uma vida de obrigações, pouco tinha ou fazia para si, mesmo insatisfeito com o trabalho e descontente com o chefe, tampouco fazia questão de mudar a tediosa rotina. Até que, literalmente da noite para o dia, viu tudo mudar, quando atrasado para pegar o trem rotineiro, percebeu seu corpo se transmutar em um inseto gigante. A vida de Gregor e de todos que o cercavam jamais seria a mesma.

Franz Kafka genialmente descreve todas as sensações da desumanização de Gregor e através dos olhos do rapaz percebemos ruir a estrutura familiar da qual ele (ou seu dinheiro) era a base. A repugnância de sua nova forma faz o mesmo se isolar no quarto, passando a ter contato apenas com sua irmã que o alimenta e se dispunha a manter o cômodo limpo. Sua mãe desmaiava ao ver sua forma e seu pai o agredia sempre que cometia o crime de deixar seus aposentos, aventurando-se pela casa. Ele, que cuidou de sua família com esmero, talvez esperasse que cuidassem dele caso precisasse, mas dia após dia deixava de ser filho, deixava de ser homem e deixava de ser Gregor.

O fim de rapaz é digno das inenarráveis tragédias gregas, onde tal qual Aquiles ou Édipo se vê vitima fatal de um destino ou força incontrolável. Negligenciado, abandonado e faminto. Morre a figura do que um dia foi conhecida por Gregor Samsa, um caixeiro viajante que outrora trabalhou e viveu apenas para sustentar os seus. Sua maior característica, seu mártir e crime.

Como prometido, retorno ao questionamento do terceiro parágrafo: “é tudo tão injusto”, mas será? É impossível não se compadecer ou mesmo se identificar com o miserável protagonista. “Que mal há em se fazer tudo por quem ama?” podemos nos perguntar e é exatamente este questionamento que talvez salvasse a vida dele. A metamorfose começa e termina sem explicações. Temos o ponto de vista do Gregor, como ele se percebe e talvez toda a metamorfose se passasse dentro de sua própria mente exausta, como um mecanismo para se permitir parar, enganando seu próprio eu, mais preocupado com o bem estar da família do que consigo.

Gregor não ensinou a pescar, deu os peixes, então os seus se acomodaram ao ponto que ele não sabia mais nada a não ser pegar seu anzol e buscar algo para alimentar seus saudáveis dependentes, enquanto perdia sua saúde. Uma persona que se resumia a isso e quando deixou de fazer, não era mais nada. Tivesse um sonho, uma paixão ou algo seu, sua vida não se seria estrita a tão pouco. Seu amor pela família e sua própria acomodação o destruíram. Talvez se olhasse com olhos mais realistas, perceberia o egoísmo de uma pessoa que o deixava se sacrificar sozinho. Plantou onde não deveria e colheu sua ruína.

Como esse texto é sobre A Metamorfose e eu, peço a licença a Kafka para cometer a ousadia de finalizar com o  trecho de um poema meu o que comecei com suas palavras. Mas penso que ele se alegraria, afinal, qual seria o intuito de escrever se não o de inspirar as próximas gerações?

Gregor tivesse a oportunidade de, em seu clímax final, pensar a respeito de tudo o que se passou, concluísse o mesmo que eu.

…Observei que de ti crescia uma fruta

Me agraciei, oh, pois depois de tanta luta

e dela me alimentei.

Mas bela planta, tu eras uma mandrágora.

Deitei-me envenenado

e não serei mas descuidado

com as sementes que plantei.