Especial | Território Lovecraft: horror cósmico, racismo e a desconstrução de uma obra

No ano de 1890 nasceu o gênio da literatura H. P. Lovecraft, que viria a se tornar o percursor do que hoje conhecemos como horror cósmico. Lovecraft inovou a forma de descrever o terror através de seus contos e poemas que descreviam o inenarrável e inomináveis criaturas, criando atmosferas que, até hoje, aterrorizam a psique humana. Obras como O Chamado de Cthulhu ou Nas Montanhas da Loucura, demonstram um pouco da genialidade subversiva e perturbadora do autor.

Mas, apesar de todo seu êxito e excelência como escritor, Lovecraft é lembrado também por ser extremamente racista e preconceituoso. Para alguns autores e escritores, como o britânico China Miéville, o ódio de raça é um elemento central na obra de Lovecraft. Um exemplo de preconceito do autor aparece no conto Herbert West: Reanimator no seguinte trecho “O negro foi nocauteado e um breve exame nos revelou que ele assim ficaria. Ele era uma coisa grotesca, parecida com um gorila com braços anormalmente longos que eu não poderia evitar de chamar de patas dianteiras…” Há estudiosos que defendem que Lovecraft usava discursos elitistas/classicistas referente a época em que se encontrava, uma vez que há frases com diversos adjetivos negativos a população mais pobre do interior da Nova Inglaterra. Lovecraft acreditava que são superiores todos aqueles que se enobreçam através da alta cultura.

Com tanto ódio para com etnias e classes, poderíamos acreditar que Lovecraft não tornaria a influenciar a cultura pop como fez em sua época, mas de fato, erramos. Apesar de tudo, Lovecraft continua sendo cultuado como um dos maiores influenciadores do gênero de terror, inclusive, sendo a principal influência para um livro que exala representatividade e, se aprofunda na cultura afro americana para desenvolver sua história. Este livro intitulado Território Lovecraft, que posteriormente se tornou uma série pelo canal HBO.

Neste artigo, vamos falar um pouco sobre essa obra literária que mergulha no universo de horror cósmico de Lovecraft, se aproveitando de tudo aquilo que o fez se tornar gigante na literatura de terror, desconstruindo o preconceito que marcou boa parte de suas obras.

Território Lovecraft — Matt Ruff

Seria tedioso ler só sobre pessoas como eu o tempo inteiro”, diz autor de  Território Lovecraft; leia a entrevista | by João Pedroso | Sem spoiler |  Medium

Assim como em muitos livros de H.P Lovecraft, o autor Matt Ruff, utiliza a fórmula de contos, porém todos esses 8 contos se ligam e, desaguam na conclusão da história. No livro acompanhamos vários personagens em suas respectivas aventuras.

A história começa com Atticus Turner, um jovem negro que após receber uma carta de seu pai, embarca em uma jornada para encontra-lo. Ao chegar em sua cidade natal, Chicago, Atticus descobre que seu pai havia desaparecido, então encontra com Letitia e seu tio George que embarcam na jornada junto com ele na busca por respostas sobre o desaparecimento de seu pai.

O problema é que essa busca resulta em acontecimentos estranhos e perturbadores. E estes eventos são apenas o começo para inúmeros questionamentos e problemas que irão acontecer com o decorrer da história. Além dos eventos estranhos, Atticus e sua família, precisam enfrentar o racismo americano da década de 50 nos Estados Unidos, época de segregação racial, o que acaba dificultando sua jornada.

Se Lovecraft criava seus monstros através do ódio racial que ele sentia por outras etnias, Matt Ruff inverte a origem de sua inspiração, “criando monstros” que nascem por conta do ódio e da segregação racial, causando muito mais pânico do que o inimaginável ou inenarrável por conta de seu realismo misturado com o fantástico. Assim, Ruff se aproveita da genialidade de Lovecraft em criar atmosferas horripilantes, ao mesmo tempo que descontrói a forma de narrativas da sua inspiração que, usava frases preconceituosas em suas obras. Em Território Lovecraft, os protagonistas lutam contra estes atos racistas em busca do direito à sua ancestralidade, àquilo que lhes pertence e foi arrancado.

Mesmo que as convicções racistas e preconceituosas dentro dos contos de H. P. Lovecraft sejam explicitas, Matt Ruff soube dar importância ao seu legado, confrontando-o e não “cancelado-o” como é o esperado hoje. Em uma das passagens de Território Lovecraft há um trecho que diz assim: “Histórias são como pessoas, Atticus. Nós até podemos amá-las, mas não podemos alegar que são perfeitas. Sempre tentamos enaltecer suas virtudes e relevar seus defeitos, mas isso não faz os defeitos desaparecem.”

Essa afirmação simboliza que o livro de Matt Ruff tenta nos contar que há o que resgatar de importante em obras polêmicas, construindo reflexões e críticas sociais, culturais e principalmente, raciais que poderão ser tiradas delas, sem se esquecer de seus defeitos.

Leonardo Vieira
Fã de quadrinhos e cinema, futuro jornalista e amante de robôs gigantes!