Com o crescimento constante de canais de streaming e conteúdos de qualidade, os canais precisam se renovar a cada lançamento para não ficar para trás. Assim fez a Netflix ao lançar a terceira temporada de uma de suas melhores apostas, Stranger Things, mantendo o tom nostálgico, divertido e ao mesmo tempo assustador, que conquistou o público em suas temporadas anteriores. Nesse novo ano, a série apresenta novas maneiras de explorar a história, com um ótimo segmento, sem perder o fôlego ao longo de seus 8 episódios que se passam como um excelente filme de 8 horas.

Espelhando-se nas narrativas de clássicos de Steven Spielberg, honrando a censura 16+, os irmãos Duffer entregam a temporada com mais cenas de ação, sangue e de forma caótica, sem desperdiçar os personagens apresentados, ganhando força a cada episódio. A nova temporada traz novamente elementos e referências conhecidas da cultura pop, na década de 80, fazendo com que o público jovem/adulto fique preso pela cativante e nostálgica aventura aterrorizante.

Apenas um ano se passou após os eventos do Devorador de Mentes, e as nossas queridas crianças de Hawkins – agora adolescentes – lidam com uma nova “criatura estranha” em suas vidas: a puberdade. O roteiro acerta em mostrar vários pontos existentes na fase de transição entre as fases da infância para a adolescência, seja com Onze (Millie Bobby Brown) e Mike (Finn Wolfhard) vivendo os intensos sentimentos da primeira paixão, ou mesmo com Will (Noah Schnapp) que ainda não se acostumou com as mudanças e que só se interessa em jogar D&D. Outra fase de mudança, que todos conhecemos, é demonstrada no personagem Steve (Joe Keery), quando o mesmo lida com o peso do “fracasso” em não ter sido aceito nas universidades e, como castigo, é obrigado por seu pai a trabalhar em uma sorveteria no novo shopping da cidade, algo muito comum em famílias tradicionais dos anos 80. Entre esses comportamentos, dados a circunstâncias cotidianas da vida, o roteiro falha ao dar ao xerife Hopper (David Harbour) o papel do pai durão, em uma cena quase que forçada quando o personagem impõe algumas regras para Mike. Isso fez com que o personagem do pai regredisse ao que era no início da série, causando certo incômodo, visto que durante sua trajetória, ao longo de 2 anos, teve a redenção saindo de um papel de policial mal à pai bonzinho. Assistir esse retrocesso em uma única cena, não é algo fácil de aceitar pelo público.

Núcleos

Na terceira temporada, os personagens se dividem em 4 núcleos, sendo essa uma das principais mudanças da série. Dustin (Gaten Matarazzo) não está com o grupo principal, e sim com o maior presente que a série nos dá, o núcleo da Sorveteria, que conta com Steve, Erica (Priah Ferguson), que roubou a cena mais uma vez, e Robin (Maya Hawke) sendo essa uma das novas personagens. Este núcleo decifra um código russo que Dustin acidentalmente, ao gravar as linhas de rádio em seu novo aparelho cientifico de comunicação, ele acaba gravando transmissões secretas dos comunistas, que levam o grupo à um bunker secreto. Um outro grande clichê, da cultura pop dos anos 80, é colocar comunistas como vilões e um plano por trás de tudo, trazendo de volta o clima de Guerra Fria da primeira temporada.

Entre os outros núcleos, temos os dois grupos detetivescos. Também envolvendo a trama dos russos, Jim Hopper, Joyce Byers (Winona Ryder), junto com o controverso Murray (Brett Gelman) e o cientista russo Alexei (Alec Utgoff), formam o grupo que investiga as mudanças estranhas que ocorrem em Hawkins devido a experimentos russos. Nos é apresentado os melhores vilões nesta temporada, o russo Grigori (Andrey Ivchenko), um assassino que parece uma mistura de Dolph Lundgren com o T-800 de O Exterminador do Futuro. Este que persegue o grupo e protagoniza algumas das melhores cenas de ação da série, em lutas com o nosso querido xerife.

O outro grupo detetivesco, formado por Nancy (Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton), agora quase adultos, que trabalham como estagiários no jornal local da cidade, aborda muito bem outro assunto comum nos anos 80: o assédio machista que os empregados do jornal fazem com Nancy, por ser estagiária e também mulher. A dupla investiga um caso estranho de roedores que estão consumindo com produtos de limpeza e fertilizantes na cidade e acabam descobrindo que isso os leva ao retorno do Monstro das Sombras, agora muito mais aterrorizante e gore do que nas temporadas anteriores.

Por fim, o núcleo principal, com Mike, Onze, Will, Lucas (Caleb McLaughlin) e Max (Sadie Sink). Este grupo aborda as situações mais “teen” na série, como relacionamentos complicados, a puberdade à flor da pele, lembrando típicos conflitos adolescentes em clássicos filmes de Glenn Hughes. Em uma comum “noite do pijama”, Onze e Max usam os poderes de On, para espionar pessoas da cidade e é aí que a superpoderosa do grupo descobre que algo de estranho está acontecendo com o irmão de Max, Billy (Dacre Montgomery). Este que acaba possuído pelo Devorador de Mentes e agora sequestra pessoas para aumentar o “exército de mortos”, uma grande referência a clássicos como “Os invasores de Corpos”, “O enigma de Outro Mundo” e a “A Noite dos Mortos Vivos”.

Pontos fortes e pontos fracos

A década de 80 foi a época das cores chamativas, luzes exóticas e figurinos extravagantes, Stranger Things nos proporcionou toda a “vibe oitentista” possível na terceira temporada. Com jogos de luzes e neons coloridos nas cenas do shopping e do parque de diversão, junto a excelente trilha sonora selecionada meticulosamente e a caracterização do figurino dos personagens, o telespectador é levado de volta para os anos 80, também graças a ótima direção de fotografia, que usa desses elementos para dar vida a mitologia da série. Para melhorar, os roteiristas não perdem de usar inúmeras referências da cultura pop da época, sem perder o ritmo e a essência da história, ao mesmo tempo apresentando algo novo em cima do que já existe, sendo um dos pontos que mais atraem o público, tanto jovem quanto adulto. Outro ponto forte, é a forma bem colocada de alívios cômicos que aliviam a tensão de momentos mais pesados e os ótimos cliffhangers, que dão ganchos excelentes para a continuação dos episódios, esses que por sua vez, acabam gerando um alto clima de tensão, prendendo o telespectador episódio por episódio.
A ótima atuação, carisma e entrega dos personagens jovens não deixam a desejar. A série que revelou crianças talentosíssimas na primeira temporada segue ganhando merecidos elogios nesse aspecto e a conclusão com o encontro de todos os núcleos, não deixa pontas soltas, fazendo disso é um grande acerto da direção, que fecha a história nessa temporada de uma maneira melhor e mais “redondinha”, do que nas temporadas anteriores.

Por outro lado, a série tem pontos negativos também, assim como já dito o papel do “pai malvado” de Jim Hopper no início da série, as cenas tristes de melancolia de Joyce Byers não entregam, mesmo que a atriz consiga dar muito de si nas cenas dramáticas, nessa temporada foi algo difícil de aceitar, a atriz simplesmente não consegue entregar. Talvez o principal ponto negativo seja o exagero de cenas com o conceito de “Deus ex Machina”: quando na trama, não conseguimos pensar no que vem a seguir e vemos as crianças encurraladas perante a um monstro de carne gigante, onde acreditamos ser o fim para o personagem, algo vem e o salva… isso foi usado de formas exageradas em sequências de um mesmo episódio, ficando um pouco cansativo para a trama.

É a melhor temporada?

Embora com pontos negativos, a terceira temporada de Stranger Things traz tudo o que a série vem montando nos últimos anos e apresenta novos conceitos para a história, abordando assuntos cotidianos, sem perder o tom aventuroso, divertido, assustador, já apresentando. Nessa temporada acrescentou mais alguns adjetivos, como perturbador, sangrento e caótico. Essa sim, é a melhor temporada entregue pela Netlfix e já podemos nos preparar para o próximo capítulo, com a já confirmada quarta temporada que ao que tudo indica, pode ser o fim dessa grandiosa, nostálgica e incrível história.

NOTA 4/5.

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